generalidades

Como nos velhos tempos

Jovens conectados à internet descobrem o charme de se corresponder por cartas
Flávia Lima

Elas foram personagens de filmes como O Carteiro e o Poeta e Central do Brasil. Algumas, de grandes escritores, saíram das gavetas e foram parar nas páginas de livros. As Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke. A correspondência de Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade. A de Simone de Beauvoir ao amante Nelson Algren. As cartas são o meio de comunicação mais tradicional para a troca de mensagens. Importantes no passado, hoje são consideradas um pouco ultrapassadas. Mas, em um mundo dominado pela rapidez do e-mail, telefone celular e orkut, quem diria, continuam presentes na vida de muitas pessoas.

Os dados confirmam: no Brasil, em 2005, foram enviadas 6,3 bilhões de correspondências, contra 6,1 bilhões em 2004. Segundo o chefe do Departamento de Produtos de Comunicação da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), Marcos César Alves, um dos motivos do aumento do número de cartas, paradoxalmente, é a quantidade cada vez maior de pessoas se comunicando pela internet. “Elas acabam criando laços, escrevendo mais e trocando informações, presentes, cartões e postais”, afirma.

O charme das correspondências não faz a cabeça da empresária Tathiane Lopes, de Santos (SP), para quem “as cartas deixam as notícias velhas.” Quando não tinha acesso à internet, Tathiane ia aos Correios todos os dias. “Tinha uma pilha de selos em casa e comprava envelopes aos montes”, lembra. Hoje, ela acredita que o MSN deixou os e-mails para trás. “As notícias ficam velhas também. Acompanho a tecnologia, o mundo está muito rápido.”

A jornalista Daise Ribeiro, de Florianópolis (SC), mesmo adepta à tecnologia da informática, não deixou de lado o hábito de escrever cartas. Quando criou o blog Ipsis Litteris, revelou a paixão em um dos primeiros textos publicados: “Adoro escrever cartas, daquelas que muita gente nem lembra mais, papel, caneta, envelope, selo. Faço isso até hoje.” E ainda provocou: “Fazia muito mais, e se não faço com a mesma intensidade de antigamente, não é por culpa minha, mas por culpa daqueles que não me respondem. Também não dá pra ficar fazendo monólogo a vida inteira.”

Depois do desabafo no blog, novos correspondentes surgiram. Para Daise, trocar correspondência é um costume que não deixa de ser romântico. “E-mails a gente deleta, mas as cartas estão lá, enchendo caixas, cestos, armários. E relê-las, então? Que coisa mais gostosa. Relembro situações, rio, sinto saudade, reflito, analiso-me, tentando entender o tempo entre aquela carta e o agora.”

Quinze cartas por dia: é o que costuma receber a professora de Literatura Andréia Faria, de Cabo Frio (RJ). Dequinha, como é conhecida na internet, criou no Orkut a comunidade ‘Apaixonados por Cartas’, hoje com 523 membros. “No momento, não sei exatamente com quantos correspondentes estou, até porque parei de contar quando cheguei a 150, para não surtar de vez”, brinca. A paixão pela palavra escrita vem de criança. “Gosto de cartas desde os 5 anos, quando acreditava em Papai Noel e escrevia para ele”, lembra.

Fernanda Stange, estudante de Psicologia, é dona do blog Bavadarge e tem uma coluna na Revista Paradoxo, produção on-line sobre comportamento, cinema, literatura e música. Mesmo encontrada facilmente na Internet, não perde o hábito de escrever cartas. Com o blog, Nanda fez amizades virtuais e passou a escrever para amigos cujo rosto só conhece por fotos. “Trocar cartas com um ‘desconhecido’ é incrível. É mágico tornar-se íntima de pessoas que você nunca viu, trocar confidências, lembranças”, conta. As cartas têm todo um charme para Fernanda. “A letra confusa, os erros ortográficos, a mão trêmula. Tudo representa algo a mais, algo que escapa às palavras.”

Lívia Fernandes, estudante de Letras na Universidade Federal de Uberlândia (MG), também tem amigos conhecidos no mundo dos blogs e cultivados no mundo das cartas. “Abandonamos o plano virtual, frio e impessoal da internet e passamos a nos enviar pro outro, lá do outro lado do país, um pouquinho a cada envelope.” Lívia acredita que existam situações e pessoas para cartas e para e-mails. Para ela, nem todos sentem emoção ao abrir um envelope, e nem todos os assuntos têm tempo para serem tratados por cartas. “A pressa que veio junto com a modernidade exige respostas imediatas, e isso os e-mails podem nos oferecer.”

Na vida de Aline Ebert, de São Leopoldo (RS), as cartas ganharam um toque mais romântico. O ato de trocar correspondências se intensificou no ano de 2002, quando conheceu um amigo pela internet, hoje seu marido. Eles escreviam para um mesmo site e ficaram nove meses se conhecendo por e-mails e cartas. “O escrever, a palavra verdadeira e bem colocada, nos aproximou”, conta. Para ela, o mundo está muito carente de atos simples como escrever uma carta. “Ele está lotado de fotologs e blogs que utilizam uma linguagem nada interessante, como miguxa, beijuxxx. A carta ajuda até a escrever melhor e querer saber do outro, não só de ti”, defende.

A mineira Inês Borges tinha o costume de escrever cartas na década de 1970. Ela se correspondia com o marido, ainda namorado na época, uma vez por semana. “A gente se encontrava no máximo umas quatro vezes ao ano”, conta. “Escrevíamos duas cartas por semana e demorava sete dias para chegar”. Na época, era o único meio de comunicação entre eles, pois não tinham telefone. “Ele mandava folhas de árvores secas com declaração de amor, flores, rótulos de cerveja, papel de bala. Tenho tudo isso guardado”, recorda.

A matéria foi escrita pela minha querida amiga Flávia, ou Toyé, ou Di, ou Frá – dá para escolher o apelido – e publicada aqui.

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