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everybody hurts

Tenho notado como ando sem paciência. Para pessoas mal-educadas, para computadores lentos, para grosserias, para estupidez deliberada, para muita coisa. Isso é ruim. Sei que isso diminui minha qualidade de vida e eu queria ser diferente, mais leve, menos aborrecida, menos afetada por tantas coisas alheias à minha vontade e às minhas ações.

Esses dias, na aula de natação, houve uma grande aula de hidroginástica antes do meu horário de nadar. A piscina estava cheia como eu nunca tinha visto, e quando deu o horário da minha turma, ainda tinha muita gente pra sair, as raias tinham que ser colocadas no lugar, estava tudo meio bagunçado, fora da rotina. Quando eu e outros colegas conseguimos colocar as raias e iríamos começar o nosso treino, eu vi um menino de uns dez anos na raia em que Jr e eu nadaríamos (porque é preciso dividir as raias, que são poucas). Ele ficou no cantinho da raia, mas não saiu da piscina. Aquilo foi me incomodando. Achava que ele deveria sair, já que a “hora de brincar” tinha acabado, ele não era aluno daquela turma, e “cadê o adulto para tirar o menino daqui?”. Pura impaciência. Ele ficava o mais no cantinho que podia, claramente não queria nos atrapalhar, e ainda assim a presença dele me incomodava. E enquanto nadava eu pensava nisso. Por que me incomoda? Por que esse sentimento de posse, de “esse horário é meu, essa raia agora é minha, sai daqui?” Tentei fazer disso um exercício de paciência, de não me deixar abalar pelo que não merece ser transformado num incômodo. Afinal, o menino não estava atrapalhando, sempre que nos via voltando ele mudava de posição caso estivesse no caminho e, na prática, era como se ele não estivesse ali, eu nadava normalmente, como todos os dias. Aí parei de dar bola pra isso.

Um pouco depois, o Jr me disse que o menino não queria estar ali. Eu estava fazendo chegadas sem intervalo, então não tinha parado de nadar desde que entrara na piscina, mas o Jr conversou rapidamente com o menino e, do outro lado da piscina, me parou pra dizer que o menino queria sair, disse que o pai dele é que não vinha buscá-lo. Estranhamos, porque o menino era grande (praticamente uns dez anos!), e o pai dele conversava com outra pessoa ali perto (o menino apontou), depois estava beijando a esposa, e o menino ali, com carinha de isolado, querendo sair. Voltei a nadar sem parar e depois, novamente lá no outro lado da piscina, o Jr me parou e me explicou, bastante envergonhado (porque ele também estava, no começo, com a mesma sensação de que a piscina era “nossa” e tinha que ser liberada naquele horário): o menino era cadeirante. Ele precisou esperar o pai buscá-lo com a cadeira de rodas para sair da piscina. Eu e o Jr ficamos morrendo de vergonha daquele sentimento inicial. Sim, porque da minha parte, já tinha passado quando eu mostrei a mim mesma que o menino não estava me atrapalhando em nada e que por isso eu não tinha nenhuma razão para não desejá-lo ali. O Jr, depois que ouviu dele que ele nem queria ter feito aula, que o pai dele é que insistiu para que ele fosse à piscina, também deixou de se importar, mas já pensou se nós tivéssemos falado alguma coisa? Se nos achássemos no direito de pedir que ele saísse ou algo assim – não chegamos nem perto disso, mas já pensou?

Poxa, que exercício, que lição! Fiquei feliz por ter parado de me aborrecer por iniciativa própria, pensando no lado prático de a presença de um menino que não fazia aula conosco não nos atrapalhar e deixar isso pra lá, continuar fazendo meu exercício. E também pensei em quantas vezes julgo, me aborreço, me incomodo, me chateio, sem entender tudo o que se passa, todas as coisas envolvidas nas situações que vivencio ou às quais assisto.

Continuo precisando fazer esse exercício do “não me aborrecer”. É desgastante e me faz mal, por isso precisa ser mudado. Já venho tentando fazer isso, e essa experiência na aula de natação me mostrou como isso pode ser importante (e pode me livrar de viver experiências bastante embaraçosas).

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